Por que sua planilha não cumpre os 9 critérios de integridade
ALCOA+ aplicado ao Excel, item por item — onde a planilha falha em cada um, e por que isso é risco documentado, não opinião.
"Excel não é proibido por norma" — frase que ouço toda semana em conversa com QA brasileiro. E está correta: nem FDA nem ANVISA proíbem Excel nominalmente. O problema é que Excel não foi feito pra cumprir ALCOA+, e ALCOA+ é cobrado nominalmente. Por isso, quando o auditor escarafuncha o seu controle de desvios em planilha, o resultado é previsível: observação atrás de observação, todas justificadas com cláusula do framework de integridade de dados.
Esse artigo testa o Excel contra os 9 critérios ALCOA+, um por um. Não é teórico — cada falha é o que aparece literalmente em Form 483 e em observações ANVISA quando o sistema é planilha.
A — Atribuível
O critério: todo dado precisa ter autor identificável.
O que o Excel oferece: "Modificado por" no histórico, se você habilitar. Mas se a planilha está numa pasta compartilhada e várias pessoas têm acesso, qualquer um pode editar e o autor que aparece é o último que abriu. Pior: o usuário pode editar metadados.
Falha: sim, na maioria das implementações reais.
L — Legível
O critério: registro permanente e legível por todo o ciclo de retenção (anos a décadas).
O que o Excel oferece: arquivos .xlsx funcionam hoje. Mas formato proprietário, dependente de versão de software. Ler um .xls de 1997 hoje é possível, mas não trivial — e a régua exige fácil acesso.
Falha: parcial. Funciona no curto prazo, fragiliza no longo.
C — Contemporâneo
O critério: registro no momento do evento, não depois.
O que o Excel oferece: uma célula com a fórmula =NOW(). Mas o usuário pode digitar qualquer data manualmente. Não há como provar que aquele registro foi feito no momento que afirma.
Falha: sim. Sem timestamp do sistema confiável e impossível de adulterar, não há contemporaneidade verificável.
O — Original
O critério: o dado original (ou cópia certificada) é preservado.
O que o Excel oferece: nada por padrão. Editar uma célula apaga o valor anterior. Existe "controle de alterações" se você habilitar — mas é desabilitável e a granularidade é pobre.
Falha: sim, sistematicamente. Este é o critério onde planilha mais falha.
A — Acurado
O critério: dado correto, com checagens que impedem erro silencioso.
O que o Excel oferece: validação de célula, sim. Mas qualquer fórmula pode ser sobrescrita por valor estático sem alerta. Erros de cópia&cola entre planilhas são comuns e silenciosos.
Falha: parcial. Validações ajudam, mas não há proteção contra adulteração intencional ou descuidada.
+ Completo
O critério: nada se perde — incluindo metadados, anexos e tentativas de mudança.
O que o Excel oferece: uma versão do arquivo. Versões anteriores ficam só se você usar SharePoint com versioning explícito (e mesmo assim, sob controle do usuário).
Falha: sim. Histórico de tentativas, registros excluídos, metadados de alteração — nada é preservado por padrão.
+ Consistente
O critério: ordem cronológica coerente entre todos os registros relacionados.
O que o Excel oferece: a ordem é a ordem das linhas. Inserir uma linha "antes" quebra a cronologia sem alarme.
Falha: sim. Cronologia em planilha é convenção visual, não regra aplicada pelo sistema.
+ Duradouro
O critério: retenção segura pelo prazo exigido (10 anos pra muitos casos farma).
O que o Excel oferece: depende do backup e da disciplina de não excluir/sobrescrever. Arquivo numa pasta de rede pode ser deletado por engano e perder o histórico inteiro.
Falha: parcial. Risco depende inteiramente do ambiente ao redor da planilha.
+ Disponível
O critério: recuperar o registro em segundos quando o auditor pede.
O que o Excel oferece: se você sabe em qual arquivo, em qual aba, em qual linha — funciona. Quando o auditor pede o histórico do desvio Y aberto em 2024, e está em "Desvios_QA_v23_final_correto.xlsx" perdido na rede, a equipe leva horas pra achar.
Falha: sim, na prática quase sempre.
Dos 9 critérios, planilha falha em 6, atende parcialmente em 3, e atende plenamente em zero. Isso não é opinião de fornecedor de eQMS — é o que o auditor experiente constata em campo, e o que sustenta a observação que vem depois.
Por que isso vira observação na inspeção
O auditor não precisa fazer cara feia pra a planilha. Ele simplesmente pede: "me mostra quem aprovou esse desvio, em que momento, e que essa aprovação não foi alterada depois". A planilha não consegue responder de forma confiável. A observação que vem é cláusula de integridade de dados — não "uso de Excel". A ANVISA, FDA e MHRA são consistentes nisso: o problema é a integridade, não o software.
Quanto a sua planilha custa, de verdade?
Use a calculadora da home pra ver o custo do tempo perdido. Depois fale com a gente pra ver como sair sem rasgar tudo.
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