Qualidade · Classificação

Desvio vs. NC vs. Reclamação: a confusão que vira achado

Classificar mal um evento abre flanco em inspeção. As 3 categorias têm fontes, prazos e fluxos diferentes — e o auditor cobra a distinção.

Por Immunoterapêutica20269 min de leitura

Toda planta farmacêutica trata, todo dia, eventos de qualidade. A categoria errada na entrada distorce indicadores, atrasa fluxos, e — em inspeção — vira achado de "sistema de qualidade sem distinção clara de tipos de evento". O auditor cobra a definição correta porque cada categoria tem prazos regulamentares e fluxos diferentes.

Esse artigo destila as 3 categorias e os critérios práticos pra não confundir.

Desvio (Deviation)

Definição: evento detectado internamente que indica afastamento de procedimento, especificação ou prática esperada, durante operação rotineira.

Origem típica:

Prazo característico: abertura dentro de 24-48h da detecção. Resolução típica em 30-60 dias dependendo de complexidade.

Fluxo: identificação → contenção imediata → investigação → causa raiz → ação corretiva (se necessária) → fechamento.

Não Conformidade (NC)

Definição: evento de afastamento detectado em auditoria (interna, externa, fornecedor, autoridade), ou em revisão sistêmica. NC é "achado" no sentido formal — não acontece "no chão de fábrica", emerge da avaliação.

Origem típica:

Prazo: resposta ao auditor geralmente em prazo definido no escopo (15-30 dias é comum), plano de ação em 60-90 dias.

Fluxo: achado documentado → análise → CAPA → eficácia → fechamento formal com auditor.

Reclamação (Complaint)

Definição: manifestação externa (do paciente, médico, farmacêutico, distribuidor) sobre qualidade, eficácia, segurança, ou identidade do produto. É evento que vem de fora da planta.

Origem típica:

Prazo regulamentar: investigação inicial em prazos rígidos (varia por país e categoria de produto). Reclamações ligadas a evento adverso entram em fluxo de farmacovigilância com prazos paralelos.

Fluxo: recepção → triagem (reclamação vs. evento adverso) → investigação (pode envolver retenção do lote) → resposta ao reclamante → fechamento → tendência mensal.

A pegadinha em farma brasileira

O erro mais comum é tratar reclamação como desvio. Cenário: paciente liga, atendente abre um "evento de qualidade" no eQMS, equipe trata como desvio interno. Resultado: prazo de farmacovigilância perdido, indicador de reclamação subestimado, achado certo em inspeção.

O outro erro: NC de auditoria interna virando desvio sem o fechamento formal com auditor. Indicador fica distorcido, e em re-auditoria o item aparece como recorrente.

Critério prático de classificação

3 perguntas que esclarecem:

  1. De onde veio? Interno rotineiro = desvio. Auditoria = NC. Externo = reclamação.
  2. Como foi detectado? Operação = desvio. Avaliação = NC. Recebimento = reclamação.
  3. Tem reclamante externo? Sim = reclamação (mesmo que origem técnica seja desvio interno descoberto pelo reclamante).

Se a resposta é ambígua, classifique como o tipo de maior rigor regulatório — reclamação tem prazos mais rígidos, depois NC, depois desvio.

O sistema que evita a confusão

eQMS moderno separa os 3 tipos em fluxos distintos desde a entrada. Operador escolhe a fonte → sistema direciona pro workflow certo → prazos legais ativam alertas automáticos. KPIs de cada tipo viram dashboards separados.

O reuso é interno (todos compartilham CAPA, RCA, evidência), mas a entrada e os prazos respeitam a categoria. Veja como conectar com CAPA que fecha de verdade e RCA defensável.

Em uma linha

Desvio = interno rotineiro. NC = achado de auditoria. Reclamação = manifestação externa. Cada um tem fonte, prazo e fluxo distintos. Classificar mal vira achado em inspeção e distorce indicadores de qualidade.

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