MHRA Data Integrity 2018: o guia que ANVISA cita
É o documento mais citado por inspetores GxP do mundo inteiro pra integridade de dados. O que diz, como aplica no Brasil, e onde mora o gap.
Quando o assunto é integridade de dados em farma, o documento mais citado no mundo é o "GXP Data Integrity Guidance and Definitions" da MHRA, publicado em março de 2018. ANVISA o cita explicitamente em treinamentos de inspetor, e o uso prático no Brasil é tão difundido que o guia funciona quase como referência regulatória de fato.
Esse artigo destila o conteúdo do guia, o que tem aplicação direta no Brasil, e onde mora o gap operacional mais comum.
O que o MHRA Guidance faz
O documento de 19 páginas (compacto, leitura essencial) faz três coisas:
- Define termos centrais (raw data, metadata, data lifecycle, ALCOA+)
- Estabelece princípios pra integridade de dados ao longo do ciclo de vida
- Dá exemplos operacionais do que é aceitável e do que não é
Os princípios centrais
O guia destaca 6 princípios que viraram critério de inspeção GxP global:
- Data governance: a gestão da integridade não é responsabilidade só da TI ou só da QA — é organizacional
- Data lifecycle: a integridade aplica do início (geração) ao fim (descarte), incluindo migração e arquivamento
- Risco proporcional: nível de controle proporcional ao impacto no paciente/produto
- ALCOA+: atribuível, legível, contemporâneo, original, acurado + completo, consistente, enduring, available
- Acesso vs. modificação: diferenciar entre quem pode ler e quem pode mudar
- Cultura: empresa precisa criar ambiente onde reportar problema de DI não é punitivo
O conceito de "raw data"
Aqui mora um achado clássico. MHRA define raw data como o registro original gerado pelo equipamento ou processo, antes de qualquer interpretação ou processamento. Se você imprime um relatório resumido de cromatograma mas joga fora o arquivo bruto do CDS, está descartando raw data — e isso é violação.
Implicação: o sistema precisa preservar o dado bruto + os metadados + o trail de processamento. Não basta guardar o PDF final.
Metadata: o detalhe esquecido
Metadata é dado que descreve outro dado: timestamp da medição, ID do operador, ID do método, condições ambientais. Sem metadata, o raw data perde contexto e a integridade enfraquece.
O guia exige que metadata viaje junto com o dado bruto — não fique órfã em outro arquivo.
Aplicação direta no Brasil
ANVISA referencia o guia em treinamentos internos e várias autuações em farma brasileira nos últimos 5 anos citam textualmente conceitos do MHRA (raw data, ALCOA+, data lifecycle). Inspetor experiente da ANVISA cita o documento quando audita sistemas eletrônicos.
Na prática, atender o MHRA Guidance é a forma mais segura de chegar bem preparado pra inspeção da ANVISA — e simultaneamente alinha pro FDA e pro PIC/S.
O gap operacional mais comum no Brasil
Empresa lê o guia, escreve política de DI, treina equipe — e na hora da inspeção descobre que o sistema usado (planilha, equipamento legado) não permite operacionalizar os princípios. SOP forte + sistema fraco = achado.
O gap não é de conhecimento, é de ferramenta. Sistemas modernos (eQMS validado, equipamentos com audit trail completo, LIMS com configuração restrita) entregam os princípios MHRA por design. Sistemas antigos forçam a empresa a depender de processo manual que falha.
O check rápido do diretor industrial
Pergunta única: "Se um inspetor da MHRA vier amanhã e pedir o raw data + metadata + trail completo dos últimos 10 lotes liberados, em quanto tempo eu entrego?" Se a resposta for "alguns dias", há gap. Se a resposta for "30 minutos via exportação validada", está alinhado.
O MHRA Data Integrity Guidance 2018 é a régua mundial de DI em farma — ANVISA opera sob esses critérios. O gap não é de SOP, é de sistema. Avaliação honesta antes da inspeção evita o Form 483 / auto de infração.
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